A escola estadual capixaba Irmã Maria Horta provou que tornar o espaço e conteúdos mais atraentes e tangíveis para os alunos é o melhor remédio contra a evasão

Compreender que a evasão escolar é uma questão muito mais complexa do que uma estatística pode aparentar foi o primeiro passo para a EEEM Irmã Maria Horta, de Vitória (ES), conseguir manter seus alunos de ensino médio na sala de aula. Uma pesquisa da FGV-RJ de 2009 revela que o principal motivo de abandono da escola entre jovens de 15 a 17 anos não é a dificuldade de acesso (10,9%) ou a necessidade de trabalhar (27%), mas a falta de interesse dos alunos no que é ensinado (40%). E como combater esse desinteresse? A resposta da escola estadual capixaba foi clara e efetiva: tornando a escola e o conteúdo mais atrativos e próximos da realidade dos estudantes.

Em vez de acusar somente os alunos pela evasão, a equipe de gestores e docentes da Irmã Maria Horta parou para avaliar a parcela de culpa da escola no problema. “Não parece correto nem justo responsabilizar o aluno essencialmente por esse fracasso. Em princípio, todos os alunos são capazes de aprender”, afirma a diretora Ida Gasperoni, responsável pela implementação do projeto Mais tempo na escola, que diminuiu drasticamente os níveis de evasão do colégio em dois anos. Para ela, jovens com dificuldade de aprendizado abandonam a escola por causa do sistema de estudo, prova, nota e reprovação. “Eles tiram uma nota baixa, depois outra, e vão desanimando e desistindo”, explica. Mesmo para os alunos que trabalham, a falta de interesse pelo aprendizado faz com que eles prefiram descansar em casa do que ir para a escola depois do serviço. Isso acontece, mais uma vez, porque no trabalho eles lidam com o mundo real, e a escola tradicional traz conteúdos pouco tangíveis para o dia-a-dia dos adolescentes.

“A evasão decorre de dois fatores fundamentais: o primeiro é o relativo atraso e inadequação da escola no mundo atual. Ela precisa ser atrativa, acolhedora, reter o aluno com atividades que façam sentido para a vida dele”, observa Haroldo Rocha, secretário de Estado da Educação do Espírito Santo. “Outro aspecto igualmente importante é que as famílias precisam cuidar melhor dos seus filhos, no sentido que a permanência da criança e do jovem na escola é um desafio de todo dia e não tem ninguém melhor do que o pai e a mãe para incentivar isso.”

Ao considerar esses fatores, a Irmã Maria Horta criou não apenas uma nova abordagem dos conteúdos tradicionais das disciplinas convencionais como matemática e português, mas uma série de atividades, oferecidas tanto no turno quanto no contraturno, voltadas para a prática, cultura e temas atuais. Os alunos podem participar de mostras culturais, oficinas literárias e teatrais, por exemplo, ou de grupos como o de vídeo-documentário, no qual os alunos desenvolvem um filme desde a produção até a exibição, ou o de cultura, no qual frequentam peças de teatro e cinemas, ou ainda de laboratórios de matemática, física e química, nos quais colocam em prática as teorias das Exatas. A escola também mantém, com produção dos alunos, uma rádio e o Jornal Tribuna Estudantil, uma parceria com o periódico capixaba A Tribuna.

Os resultados estatísticos vieram depois, mas os professores puderam constatar a transformação dos alunos rapidamente. Aline Nunes, que ensina biologia e música na escola, destaca a evolução de um de seus estudantes do segundo ano do ensino médio. “Ele sempre chegava com um aparelho de mp4 tocando funk, tinha dificuldade de respeito na sala de aula. Como percebi que ele gostava de música, pensei em trabalhar isso e o coloquei para ajudar a desenvolver os instrumentos para a banda na aula de música”, conta. “Ele se envolveu tanto que se tornou responsável pela banda, começou a recrutar os alunos que sabia que gostavam de música, desenvolveu todos os instrumentos com materiais reciclados e me ajudou a compor as músicas. Em uma deles ele fez um solo.” A professora relembra, orgulhosa, de que quando o jovem estudava no período matutino, os outros docentes não aturavam seu comportamento e ficaram muito surpresos com as mudanças. “Juntamos ingredientes positivos e vimos que ele podia mais.”

Como o exemplo demonstra, mesmo as disciplinas convencionais passaram a procurar atrair mais o interesse dos alunos, tornando-os protagonistas do próprio aprendizado. O caso do jovem que desenvolveu os instrumentos para a banda com materiais reciclados é um entre vários. A escola passou a estimular também pesquisas de campo, trabalhos em laboratórios e projetos com temas atuais, como o “Alunos disseminadores da sustentabilidade”, coordenado pela professora Aline. Executado de maneira interdisciplinar, seu objetivo é não apenas envolver os estudantes com os conteúdos tradicionais, mas os conscientizar para o desenvolvimento sustentável, transformando-os em agentes de mudança dentro e fora da escola. Nada mais atual. “Nós trabalhamos o tema tanto em viagens de estudo de meio, para mostrar impactos ambientais, e passeios, os levando para ver como se faz a reciclagem, quanto na sala de aula”, afirma Aline. “Então começamos a estudar a sustentabilidade tanto na prática, colocando a mão na massa para desenvolver projetos, quanto a parte intelectual, pesquisando sobre o assunto na internet, por exemplo. Isso foi segurando os alunos na sala de aula, porque eles tiveram o interesse de começar e terminar o projeto, de ficar até o fim. Depois fizemos uma mostra cultural para exporem tudo o que fizeram. Eles se sentiram valorizados.”

Menos evasão, mais envolvimento

A motivação dos alunos é perceptível em seus rostos, mas também nos números. A escola constatou que em 2008, um ano depois da implementação das mudanças, a evasão caiu de 13,6% para 10,9%. A redução não é drástica, mas a diretora Ida explica: houve um problema técnico e o sistema cadastrou muito mais matriculados no período noturno do que os alunos que de fato cursariam o ano em 2008, por isso foram computados como evadidos estudantes que não chegaram a frequentar a escola. Nos períodos matutino e vespertino, no entanto, a mudança é perceptível. De 2007 para 2008, o índice caiu, respectivamente, de 5,5% para 0,8% e de 16,5% para 8,1%. “Eu vejo o prazer que os alunos têm de estar na escola agora. Às vezes, na hora do recreio, gosto de ir observá-los e percebo que se dão melhor entre si e também com os professores. Além de diminuir evasão, melhorou o relacionamento entre todos porque a convivência deixou de ser só dentro da sala de aula”, comenta Ida.

Os resultados do projeto renderam à escola Irmã Maria Horta em 2009, na categoria de gestão escolar e tema “redução do abandono e evasão”, o Prêmio Sedu Boas Práticas na Educação, uma iniciativa do estado do Espírito Santo para reconhecer iniciativas de escolas e profissionais da rede.

Rosana dos Santos, professora de língua portuguesa e filosofia da rede privada e uma das avaliadoras do projeto no Prêmio Sedu, se impressionou com a ousadia da escola de transformar o ensino em integral e propor uma maneira inovadora e interdisciplinar de envolver os alunos. “O projeto começou a envolver cultura e valores no aprendizado. Boa parte dos alunos vão para a escola por obrigação, mas se chamamos um deles para produzir um jornal falando daquilo que eles vivenciam em suas rotinas o resultado é fantástico”, diz. “O que me chamou atenção é que a escola Irmã Maria Horta está localizada em um dos melhores bairros de Vitória, de classe média alta, mas eles recebem estudantes de vários bolsões de pobreza. O que me deixou encantada é que eles usaram tudo o que discutimos o tempo todo na educação, que é a questão de trazer o dia-a-dia dos alunos para a sala de aula.”

Para implementar um projeto como esse, a diretora Ida afirma que não é necessário ampliar a estrutura (desde que haja laboratórios e salas suficientes, como no caso), apenas aumentar o orçamento para o salário dos professores do contraturno. A escola contratou dez docentes com a autorização da secretaria estadual. Além dos recursos financeiros, a professora Aline coloca alguns pontos que precisam ser observados para o sucesso de uma empreitada como essa: conhecer as características da comunidade, interdisciplinaridade, envolvimento da equipe e das famílias e estabelecimento de parcerias (confira o quadro na página XX).


Condições si ne qua non de sucesso

A professora de biologia e música Aline Nunes, idealizadora do projeto interdisciplinar de sustentabilidade da escola Irmã Maria Horta, aponta alguns fatores a obedecer para implementar o período integral e tornar a escola um local mais interessante para os alunos.

  • É preciso conhecer a comunidade para aproximar as famílias das atividades da escola, mas também para os pais se envolverem mais com o aprendizado dos filhos e para que a equipe pedagógica saiba trazer a realidade dos alunos para dentro da sala de aula.
  • Os professores precisam aceitar, interagir e se engajar no projeto. “Não se faz projeto sozinho”, lembra Aline.
  • Não se pode colocar um professor como representante de uma turma. Todos devem trabalhar da mesma forma o tema em todas as salas para estimular a integração e não a competitividade.
  • É essencial haver a participação da comunidade no projeto, seja participando dos eventos da escola, seja contribuindo com palestras e conversas voluntárias. “Em uma ocasião, fizemos uma oficina com uma senhora carente do bairro que fabricava e vendia sabão. Pedimos para ela explicar como fazia o produto e ela explicou que era com óleo velho recolhido de pontos de reciclagem. Então os alunos começaram a fazer o mesmo e produziram sabão em pedra e em pó”, conta a professora.
  • É importante estabelecer parcerias para apoiar determinadas iniciativas do projeto. No caso, a escola recebe o apoio do jornal A Tribuna com exemplares gratuitos e produção do Jornal Tribuna Estudantil.

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