Especialistas põem por terra o mito de que ensinar dois ou mais idiomas a crianças as confunde e piora o seu desempenho. Pelo contrário – cada vez mais se tem provado que crianças bilíngues tendem a ter mais atenção e foco em suas atividades, além de ampliar sua visão de mundo e conviver com outras culturas

Um menino do 2º ano do ensino fundamental surgiu correndo nos corredores da escola bilíngue Stance Dual, em São Paulo, e chamou a atenção da coordenadora geral de inglês, Sarah Weiler. “Shouldn’t you be in class?” (você não deveria estar na aula?) – “I’m gonna play now!” (agora eu vou brincar!), ele disse, anunciando o início do recreio. Logo em seguida, uma menina ainda mais nova cruzou o caminho da coordenadora, que perguntou: “Hello, what did you learn in class today?” (olá, o que você aprendeu na aula hoje?), ao que a pequena respondeu, sem titubear: “fossils!” (fósseis). Apesar de não demonstrar um traço de sotaque ou qualquer dificuldade para entender e se expressar em inglês, essas crianças são brasileiras, mas educadas desde bem pequenas em uma escola bilíngue.

Um estudo das instituições Concordia University, York University e Université de Provence publicado no fim de janeiro revela que crianças bilíngues não apenas não confundem os dois idiomas que aprenderam, como tendem a conseguir se focar mais em tarefas e desenvolver uma atenção melhor do que seus pares monolíngues. O resultado obtido a partir de um grupo de 63 crianças de dois anos de idade pode ser explicado, segundo Diane Poulin-Dubois, a pesquisadora que comandou a experiência, pelo fato das crianças bilíngues estarem acostumadas a prestar atenção na diferença entre as duas línguas que conhecem, tanto para ouvir quanto para se expressar.

Esse é apenas um dos diversos estudos que têm surgido mundo afora a respeito das vantagens que o bilinguismo traz às crianças, especialmente quando inserido no contexto escolar formal. Isso porque, em uma escola de idiomas, a língua não é abordada como ferramenta, mas como objeto de estudo. “Existe a linguagem social e a acadêmica. A criança que faz um curso de inglês vai aprender a se comunicar socialmente, fazer uma reserva de hotel, pedir um prato em um restaurante, se comunicar com as pessoas. Mas não é uma criança que vai ter os conteúdos epistemológicos exigidos por uma escola internacional”, diz Daniella Leonardi, coordenadora de educação infantil e de inglês da escola bilíngue Play Pen, de São Paulo. Outra vantagem, segundo Sarah, a coordenadora de inglês da Stance Dual, é que uma educação bilíngue aumenta não apenas as oportunidades na vida dos jovens, como também amplia sua visão de mundo e de outras culturas. “Eles vão olhar as atualidades de forma muito mais ampla. Poderão ver não só como as pessoas no Brasil pensam, mas também o que os britânicos, os americanos, as pessoas do Zimbábue pensam. Como o inglês é uma língua franca, eles acham reportagens até da China em inglês, e assim podem olhar sobre um assunto com várias visões e então formar uma opinião sobre um assunto com muito mais recursos”, argumenta.

A psicóloga Elizabete Flory, doutora em bilinguismo pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, fez um levantamento de pesquisas no mundo todo sobre educação bilíngue e constatou que os resultados apontavam para uma vantagem cognitiva das crianças. “A primeira é uma certa antecipação da consciência metalinguística – ela se dá conta de que o objeto tem palavras diferentes para representá-lo e diferencia com qual língua falar com cada pessoa”, explica.

Outra vantagem é uma resposta mais rápida e melhor em questões que envolvem o controle inibitório. Por exemplo: mostra-se uma foto de um dia com sol e outra de uma noite com lua. Aí dizem para fingir que o sol se chama Lua e, a lua, Sol. Quando questionadas qual é o nome do astro no desenho da noite, as crianças bilíngues respondem “Sol” mais vezes e mais rapidamente. “Observei também uma possível antecipação de pensamento cognitivo em cálculos, o que está ligado ao desenvolvimento da lógica, pois as crianças bilíngues aceleraram o pensamento lógico”, afirma.

Elizabete aponta, no entanto, que não é sempre que o bilinguismo é acompanhado de vantagens cognitivas. “Não dá para falar que o bilinguismo aumenta a inteligência, mas crescer falando duas línguas pode ter influências positivas em alguns aspectos da inteligência”, frisa.

Cuidados

A balança entre vantagens e desvantagens pode estar cada vez mais tendendo para o lado positivo do ensino bilíngue, mas ainda assim é preciso observar alguns aspectos na hora de trabalhar dois idiomas na escola. Elizabete sugere que o primeiro passo dos pais que desejam matricular seus filhos em uma escola bilíngue seja escolher uma instituição com valores e filosofia com as quais se identifiquem, porque isso varia muito entre as escolas do tipo. Em seguida, é preciso atentar para a proficiência dos professores no idioma e o número de horas que a criança ficará exposta à outra língua. “Existe um mínimo de horas necessário”, diz. “E a qualidade da exposição também é importante.” Um terceiro ponto é observar se o aluno está, depois de determinado tempo, adquirindo proficiência em pelo menos um dos idiomas.

Elizabete aponta também que é essencial valorizar ambas as línguas que a criança tem contato, senão pode causar a impressão de que um dos idiomas não é útil, ou tem menos importância ou valor. Ou, pior ainda, não cria identidade cultural com a língua. “Isso é mais grave em situações de imigração, quando muitas vezes a criança pensa que sua língua materna não pode ser falada em um contexto natural”, explica.

Segundo a psicóloga, se o aluno sente que aprender a segunda língua é uma obrigação, isso também o afasta do aprendizado. “É super importante que ele viva isso em um contexto natural. Se os pais forçarem a criança a aprender ou a cobrarem de mostrar resultados na língua, eu sei que a intenção é boa, mas não vai acontecer naturalmente”, afirma. Introduzir a segunda língua com naturalidade e sem pressão é também o que Selma Moura, doutoranda em linguística aplicada pela Unicamp e mestre em educação pela USP, defende. Para ela, é preciso observar o interesse da criança, seu nível de desenvolvimento no idioma e respeitar o seu tempo de aprendizado. “É responsável por parte da escola pensar em alfabetizar em uma língua (e geralmente vai ser o português), mas acho problemático tolher a curiosidade da criança. Se ela perguntar como se escreve algo antes do tempo, ou na outra língua, o professor tem que dar a informação”, diz.

A escola bilíngue Maple Bear, com sede nos EUA, diversas escolas pelo mundo e 40 no Brasil, segue o preceito de trabalhar dois idiomas respeitando o tempo de aprendizado das crianças. “Frequentemente as crianças são forçadas a fazer coisas para as quais elas não estão prontas”, afirma Jim Leary, diretor pedagógico para a América do Sul. “Em vez de fazer a criança se adaptar a uma filosofia em particular, nós fazemos os conteúdos se adaptarem a ela.” Como? Através do conceito canadense de “instrução diferenciada”, com flexibilidade do aprendizado. Podem ser grupos flexíveis que progridem no seu próprio ritmo e com apoio focado do corpo docente, ou a realização, em torno de um mesmo tema, de atividades diferentes para cada aluno dependendo de seu estilo de aprender. As aulas também respeitam o tempo de aprendizado, com flexibilidade em prazos para finalizar exercícios, e os modos de instrução. “Nem todos os estudantes aprendem da mesma forma ou fazendo as mesmas atividades, então a instrução na sala de aula varia, assim os alunos estão engajados em ouvir, falar, ler, escrever, fazer atividades físicas, artísticas etc., enquanto aprendem uma habilidade ou conceito. Não é exigido que eles obtenham sua aprendizagem a partir de apenas um método”, explica Leary.

Alfabetização e confusão

As pesquisas hoje sobre educação bilíngue derrubaram o mito de que ensinar dois idiomas confunde as crianças. “Em alemão, por exemplo, ‘quebrar’ é ‘kaputt machen’. Aí lembro de uma criança que quis dizer que algo quebrou e disse ‘kaputou’. Isso é absolutamente normal na aquisição bilíngue, porque vai demorar um pouco para ela diferenciar as línguas. Mas fazer essa mistura só significa que ela está construindo sua noção de língua”, analisa Elizabete Flory. Ainda assim, fica a questão de como alfabetizar crianças bilíngues. Na língua materna ou na segunda língua? Ou nas duas ao mesmo tempo?

Cada escola e corrente defende um método e repudia outros, mas o mais comum no Brasil é a alfabetização no idioma materno, em geral o português, seguida de um processo natural de aquisição da segunda língua, sem repetir todo o processo de alfabetização. “A gente acredita que a alfabetização tem que acontecer na primeira língua, porque assim a criança levanta hipóteses sobre a escrita a partir do seu maior repertório, do seu contexto”, afirma Gabriela Argolo, coordenadora pedagógica da Play Pen. Ela explica que o aluno se alfabetiza uma vez só, em português, e transfere as descobertas que fez no código da língua, como as letras se juntam, quando vai ler e escrever na segunda língua também – no caso da Play Pen, o inglês.

Elizabete explica que existem três tipos de alfabetização: a sequencial materna-segunda língua, a sequencial na segunda língua seguida da materna, e a simultânea, na qual ambos os idiomas são ensinados. “Conheço uma experiência muito interessante na Alemanha, em que desenvolveram uma técnica de alfabetização simultânea em português e alemão. Trabalhavam as duas línguas juntas quando tinham aspectos parecidos e separadas quando eram especificidades, e crianças podiam escrever na língua que quisessem”, conta. “Entendo que a opção pela alfabetização sequencial seja mais confortável, mas também acho que a criança que fala duas línguas já está fazendo hipóteses de como vai fazer isso na segunda língua. Tanto que não é preciso alfabetizar no segundo idioma, ela é que vai transferir.” Selma concorda com a ideia de que a criança faz a transferência da alfabetização em uma língua para a outra, mas discorda da nomenclatura “alfabetização simultânea”. “Não é simultânea, é bilíngue, porque não são duas alfabetizações, é uma só. Quando a criança entende o código da língua, ela só vai fazer uma mudança, uma transposição de som”, observa.

Embora algumas escolas defendam que a escrita no segundo idioma deve ser escondida do aluno enquanto ele está na fase de letramento na língua materna, as especialistas e escolas entrevistadas discordam. Para Selma, uma criança que já está matriculada em uma escola bilíngue e consegue transitar com alguma facilidade entre os dois idiomas, ao se deparar com a língua na escrita não há confusão ou estranhamento, pois ela já convive com essa língua normalmente em seu cotidiano. A Stance Dual segue o mesmo princípio. Desde pequenos, com cerca de dois a três anos, os alunos fazem uma imersão no inglês e estão expostos à escrita nas duas línguas. “Na alfabetização damos ênfase na língua materna, mas não significa que não trabalhamos com literatura e o sistema de escrita em inglês também. E a gente trabalha com as semelhanças e diferenças de forma que no 2º ano os alunos estão lendo e escrevendo nas duas línguas”, explica Sarah. Andrea Zinni, coordenadora geral do fundamental II da Stance Dual, complementa: “A ideia não é fechar um bloco de alfabetização em português e depois em inglês. Acreditamos que a alfabetização pode também ser bilíngue, porque é um processo de aquisição da linguagem, não de um idioma. Por uma questão contextual, começamos pelo português”.

Na Escola Suíço-Brasileira, também em São Paulo, a alfabetização também começa pela língua materna, mas como existem 24 nacionalidades de alunos na instituição (60% brasileiros e 20% suíços), cada um é alfabetizado na sua língua materna, e não necessariamente no português. No 1º ano, portanto, a criança é alfabetizada em sua língua materna, no 2º ano no alemão (ou no português, dependendo de sua nacionalidade), no 6º ano é introduzido o inglês, no 8º ano o francês e, no primeiro do ensino médio, o espanhol (a única língua optativa). “Todas essas línguas são trabalhadas como ferramentas, e não como línguas estrangeiras”, esclarece Bernhard Beutler, diretor da escola.
É importante sublinhar, no entanto, que a transferência de conhecimentos de uma língua para outra a partir de apenas um processo de alfabetização depende da segunda língua. “Quanto mais próximas as línguas, mais existe a transferência do aprendizado. Se for português e japonês, ou russo, ou árabe, aí a criança vai ter que construir também um outro sistema”, afirma Elizabete.

Currículo integrado

“A criança é bilíngue, mas a aula não é bilíngue”, diferencia Andrea, coordenadora da Stance Dual. Lá, como na maior parte das escolas bilíngues, ou a aula é em inglês, ou em português. Apesar da maior parte dos professores – e alguns funcionários – falarem as duas línguas, são reconhecidos pela escola como referência em uma delas. Assim, um aluno vai olhar para aquela pessoa e saber em que idioma se comunicar sempre. Desta forma, se ele falar em português com um professor com referência em inglês, ainda que o educador fale português, ele irá responder apenas em inglês. A escola utiliza o currículo nacional e distribui os conteúdos para professores com referência em inglês e português. Assim, os alunos têm, por exemplo, aula de matemática e de “math” – o conteúdo não se repete, apenas é ensinado ora em português, por um professor, ora em outra, em inglês por outro docente. A partir disso, a escola desenvolve projetos disciplinares integrados com as duas línguas. A carga horária começa com imersão no inglês para crianças a partir de dois anos, quatro horas por dia, para equilibrar com todo o contexto em português fora da escola. A partir do ensino fundamental, as aulas vão das 7h30 às 15h30 e o português entra na grade curricular.

A estratégia de imersão na segunda língua na educação infantil, para depois fazer a alfabetização na língua materna no 1º ano do ensino fundamental, é recorrente nas escolas bilíngues, apesar de a idade de admissão variar dependendo da instituição – geralmente de um a três anos. Depois, a carga de inglês diminui e a de português aumenta progressivamente. Assim acontece também na Play Pen. O currículo, porém, não é apenas baseado nos PCNs, mas também em conteúdos internacionais. “Não adianta ter duas escolas, uma que segue os ‘international standards’ e outra que segue os PCNs. Os diretores dos dois currículos devem construir um currículo integrado. Por exemplo na nossa matemática, no 4º ano do currículo brasileiro as crianças têm frações. Quando elas já adquiriram o conceito de fração, vão transferir para o vocabulário do inglês depois. Aí, em inglês, vão ter por exemplo ‘3D Geometry’, que não é exigido pelo currículo do MEC. Então elas acabam sendo expostas e aprendendo mais matemática”, explica Daniella Leonardi. A vantagem de adotar currículos internacionais é aumentar as chances de que os alunos saiam da escola e ingressem em instituições estrangeiras sem qualquer desvantagem de conteúdo.

Mas isso só depois da conclusão do ensino médio, quando os estudantes já se compreendem, interpretam, pensam e se expressam no segundo idioma como se fossem nativos. Para isso, é necessário começar cedo. Quão cedo? Cada escola e especialista defende uma idade, mas todos são unânimes: cedo. Ana Paula Mariutti, presidente da Organização das Escolas Bilíngues de São Paulo, um grupo de 13 escolas bilíngues que se reúne de três a quatro vezes por ano para debater o ensino bilíngue, divulgá-lo e promover cursos para o corpo docente que as escolas sozinhas não conseguiriam pagar, argumenta que não existe uma idade certa, mas sim uma idade em que a língua é tratada com mais naturalidade. “Então quanto mais cedo, melhor é para a criança. Muitos pais pensam que colocar o filho em uma escola bilíngue cedo não adianta porque ele não entende nada. Mas é o contrário. Como a gente aprendeu português? Só aprendemos a língua quando somos expostos ao conteúdo. Se ela entra em um curso de línguas, faz inglês como objeto de estudo e as situações criadas são “fake”, diz.

Exclusivo no site: entrevista com a membro do Grupo de Estudos sobre Educação Bilíngue da PUC/SP Antonieta Megale, coordenadora de Língua Inglesa da Escola Brasileira Israelita Chaim Nachman Bialik, sobre críticas, dificuldades e avanços do ensino bilíngue no Brasil.

Internacionais ou bilíngues?
Apesar das escolas internacionais se considerarem bilíngues e das bilíngues muitas vezes oferecerem a oportunidade de obter um diploma internacional, tradicionalmente, uma escola internacional é aquela que está habilitada para ensinar o currículo de um outro país (o que permite que os estudantes egressos sejam aceitos por universidades estrangeiras com mais facilidade), enquanto uma escola bilíngue é aquela que usa no mínimo dois idiomas para ministrar as disciplinas tradicionais e o currículo nacional (embora muitas vezes ele seja complementado com o internacional). Se antes o público dessas escolas era praticamente todo estrangeiro, hoje é, em sua maioria, de brasileiros interessados em uma formação mais ampla. No Brasil, ainda existem outros três subtipos de escola bilíngue: as interculturais indígenas, escolas bilíngues para surdos e as escolas de fronteira (que recebem professores do outro lado da fronteira para dar aulas em espanhol e mandam seus professores para dar aulas em português).

Escolas que querem ser bilíngues

Não é porque uma criança não ingressou em uma escola bilíngue em seus primeiros anos de vida que não será fluente em duas ou mais línguas, assim como não é porque uma escola nasceu monolíngue que nunca poderá ser bilíngue. É nisso que apostam algumas experiências pelo Brasil, como o Sistema de Ensino Dom Bosco, que criou uma metodologia para implementar a educação bilíngue em escolas regulares. A primeira escola a adotar a proposta é o Colégio Dom Bosco, de São Paulo, que até 2016 terá a opção de ensino bilíngue para as famílias. A ideia do processo de alguns anos é acostumar os alunos aos poucos a um segundo idioma usado no dia-a-dia escolar. Primeiro vão acostumar os professores (que dão aula em português) a utilizar sempre dicionários em sala de aula para trabalhar com os estudantes palavras do conteúdo em inglês. Depois, os alunos refarão provas dos anos anteriores, mas traduzidas para o inglês. Assim, gradativamente, estratégias de implementação do inglês serão introduzidas até 2016, com provas a cada seis meses para garantir que os alunos estão adquirindo vocabulário na segunda língua. O sistema recomenda às escolas que seja criado o período integral, um em português de acordo com os PCNs, outro em inglês, com os padrões internacionais. “Vamos propor o currículo integral, assim em um turno o aluno tem o currículo regular, e no outro vai ter o currículo internacional, que dá a possibilidade, no fim dos estudos, de ter uma certificação de conclusão de curso validada por dois países”, explica Rosane Nicola, diretora do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Educação do

Sistema de Ensino Dom Bosco

Outra experiência de implementação de ensino bilíngue em escolas monolíngues está sendo feita pela Systemic Bilingual, um conjunto de método, formação e material criados pelas irmãs alagoanas Fátima e Vanessa Tenório e hoje presente em 45 escolas pelo Brasil, da educação infantil ao 7º ano do ensino fundamental. Um dos princípios é aumentar o custo do ensino o mínimo possível, para não haver muita diferença na mensalidade. Por isso, a Systemic trabalha com a proposta de um professor de inglês dar aulas em inglês sobre todas as disciplinas, complementando e trabalhando paralelamente com os professores especialistas. “É mais fácil o profissional de inglês ser generalista do que um profissional de matemática ser um linguista”, defende Vanessa.

A Systemic não alfabetiza em inglês, apenas aproveita a alfabetização em português para introduzir o segundo idioma. Mas a ideia surgiu justamente porque as irmãs discordavam da maneira com o inglês era ensinado para crianças. Segundo elas, é comum que escolas de idioma – ou escolas que colocam o inglês como língua estrangeira – usem o inglês como uma simplificação de aula para adultos, ou seja, dissecando gramática etc. Elas propõem que sejam usados artifícios próprios para o ensino das crianças, como trabalhar sensações e linguagem corporal. Isso tudo apenas em inglês, sem misturar as línguas. “Parece que o professor não tem a segurança para acreditar que a criança tem a capacidade de entender. A gente é contra isso, porque quando o professor fala ‘tira o seu shoe’, ela vai apenas responder em português”, diz Fátima. Cada escola pode escolher a carga horária de aulas ministradas em inglês, mas a Systemic defende que o mínimo adequado é de uma hora por dia.

Entrevista com Antonieta Megale, coordenadora de Língua Inglesa da Escola Brasileira Israelita Chaim Nachman Bialik, membro do grupo GEEB (Grupo de Estudos sobre Educação Bilíngue da PUC/SP) e integrante do Bilingualism Sig – Braz Tesol.

1. Quais são os principais debates hoje em torno do ensino bilíngue?

Nunca antes os termos bilinguismo e educação bilíngue estiveram em tamanha evidência na sociedade brasileira. Dentre as propostas reconhecidas e discutidas atualmente, encontram-se:

a. Educação bilíngue com língua de sinais: assegurada por lei desde 1996, parte do princípio de que o surdo deve dominar a língua de sinais e a língua oficial de seu país.

b. Educação bilíngue indígena: respaldada  pela legislação de 1993, permite aos indígenas desenvolverem propostas educacionais que valorizem suas línguas, cultura e identidade, ao mesmo tempo em que se instrumentalizam para a inserção na sociedade não-indígena brasileira.

c. Educação bilíngue em contextos multilíngues: dada a existência de comunidades que, embora falem a língua portuguesa, não se desvincularam da língua de seus ascendentes, como por exemplo, comunidades de fronteira, comunidades alemãs e ucranianas no sul do Brasil, a educação bilíngue responde as especificidades que caracterizam este contexto.

d. Educação bilíngue de prestígio ou de elite: denominação esta devido às condições financeiras favoráveis dos alunos que podem frequentar estas escolas, nelas a instrução ocorre em duas línguas simultaneamente.

2. Quais são as dificuldades apresentadas para as crianças e como superá-las? 


Não há relatos expressivos de crianças que apresentaram problemas e/ou dificuldades persistentes em ambientes nos quais as duas línguas são respeitadas e valorizadas. Alunos que ingressam nestas escolas em idade escolar mais avançada devem contar com um suporte adicional oferecido pela escola até que se sinta seguro e a vontade para se comunicar em outra língua. Muitas pesquisas têm demonstrado que programas bilíngues que se baseiam na crença de que a melhor forma de aprender um segundo idioma é se concentrar e trabalhar apenas com a segunda língua criam um ambiente desfavorável ao aprendizado, pois forçam os alunos a renegarem parte essencial do que são. Além disso, tais programas subestimam a habilidade natural dos indivíduos para aprender duas línguas e acomodar diferentes perspectivas culturais eficientemente. Na verdade, esses programas se contentam com o monolinguismo e com o monoculturalismo, quando se sabe das vantagens oferecidas pelo bilinguismo e biculturalismo. Dessa forma, a valorização de ambas as línguas e o preparo dos educadores e profissionais envolvidos para lidar com alunos se sentem mais inseguros ou que demonstram certo desconforto em se expressarem em uma segunda língua são fatores determinantes para que tais dificuldades sejam superadas.

3. Como ensinar duas ou mais línguas sem confundir as crianças?

Aprender uma nova língua, como qualquer aprendizado, demanda a acomodação de novas estruturas às já existentes. Portanto, indivíduos bilíngues não funcionam como dois indivíduos monolíngues, mas como um indivíduo integrado com duas línguas ativas interferindo uma na outra e servindo como uma fonte de comunicação eficiente. O fato de alunos bilíngues utilizarem ambas as línguas não é sinal de confusão. Bilíngues escolhem uma língua particular para falar, ler, escrever devido a diversas razões, tais como: nível de proficiência, especificidade do tópico, características da audiência e motivação para utilizar a língua. Alunos bilíngues têm melhor desempenho em contextos nos quais as línguas que estão aprendendo são utilizadas e valorizadas. Além disso, o respeito à língua nativa do aluno, mesmo que esta não seja utilizada como meio de instrução, favorece o aprendizado porque isso reflete o respeito pelo próprio aluno e por suas famílias.

4. Especialmente na fase de alfabetização, existe alguma restrição à escrita no segundo idioma?

Creio que um contexto bilíngue eficaz é aquele que permite que a criança usufrua de três contínuos, que são as habilidades orais e escritas, as receptivas e produtivas e as de primeira e segunda língua em todos os momentos. Para mim, letramento é um conjunto plural de práticas sociais que envolvem modos de falar, interagir, pensar, avaliar e acreditar. Em relação à alfabetização, há estudos de caso a respeito de crianças que foram alfabetizadas com sucesso em duas línguas simultaneamente, em sua primeira língua ou em sua segunda língua. Na verdade, considero cinco aspectos fundamentais para o desenvolvimento das habilidades de escrita e leitura de seus alunos bilíngues: seleção ou elaboração de materiais didáticos adequados, desenvolvimento das habilidades orais do aluno, instrução culturalmente apropriada, desenvolvimento de habilidades de codificação e decodificação e o ensino de estratégias referentes à escrita e a leitura.


5. Como conciliar o currículo brasileiro em duas línguas? 

O currículo de uma escola bilíngue deve contemplar objetivos gerais relacionados às necessidades de acesso ao conjunto de saberes integrados em uma Base Nacional Comum. Além disso, disciplinas como Matemática, Ciências, História e Geografia, são trabalhadas nas duas línguas e, com isso, os alunos aprendem nas duas línguas, em situações reais de fala. Somando-se a isso, deve contemplar tanto aspectos culturais brasileiros quanto os relacionados ao(s) país(es) da outra língua trabalhada. O papel de cada língua varia de acordo com o programa adotado por cada escola e como no Brasil não há regulamentação para escolas bilíngues pode-se observar diversos e diferenciados programas.


6. Quais são as principais críticas ao ensino bilíngue?

Mais que críticas, há ainda um grande desconhecimento deste fenômeno e com isso muito mitos foram estabelecidos como o que aprender duas línguas ao mesmo tempo confunde a criança e diminui sua inteligência. Porém, estudos recentes que fazem uso de modelos experimentais elaborados, apontaram resultados em uma direção bastante diferente. No ano de 2010, Adesope, Thompson e Undgerleider realizaram um importante estudo, no qual examinaram 63 pesquisas, envolvendo 6.022 participantes, documentando vantagens cognitivas associadas ao bilinguismo. Os resultados dessas pesquisas relacionam o bilinguismo a vantagens nas seguintes áreas:

a. Atenção e memória: a habilidade de aprendizes bilíngues em administrar duas línguas, separando o vocabulário e a gramática dessas línguas, faz com que crianças que utilizam dois idiomas desenvolvam um maior controle da atenção e da memória.

b. Consciência metalinguística e metacognitiva: crianças bilíngues possuem maior capacidade de pensar sobre a língua, uma vez que ao serem expostas a duas línguas adquirem precocemente consciência de que as palavras são apenas arbitraria e simbolicamente relacionadas aos seus conceitos, por exemplo, saber que dog e cachorro são conceitos para o animal cachorro as levam ao entendimento que a palavra cachorro é apenas um símbolo arbitrário. Além disso, o aprendizado do vocabulário, sintaxe, fonologia, morfologia e registro de mais de uma língua proporciona as crianças bilíngues maior discernimento de seus processos cognitivos e estratégias de aprendizagem.

c. Criatividade e resolução de problemas: a alternância entre duas línguas e duas diferentes perspectivas proporcionam as crianças bilíngues maior desenvolvimento da flexibilidade cognitiva e com isso a criatividade e a capacidade para resolver problemas são mais favorecidas.

(Referência: ADESOPE, O., LAVIN, T., THOMPSON, T. E UNGERLEIDER, C. Systematic Review and Meta-Analysis on the Cognitive Benefits of Bilingualism. Review of Educational Research. 2010, p. 207-245.)

7. Como novas descobertas têm contribuído para a mudança da educação bilíngue?

Os primeiros estudos sobre a relação entre bilinguismo e desenvolvimento cognitivo, realizados na década de 20, demonstraram consequências negativas revelando que crianças bilíngues sofriam com atraso escolar, tinham QI mais baixo e eram socialmente desajustadas, em comparação a crianças monolíngues. Porém, uma série de críticas metodológicas pode ser feitas a estes estudos iniciais: os participantes bilíngues da pesquisa estavam em situação desigual se comparados aos monolíngues em termos socioeconômicos ou de proficiência na língua do teste aplicado. Além disso, muitas vezes esses testes foram ministrados na língua de menor domínio dos participantes. Em estudos mais recentes que fazem uso de modelos experimentais mais elaborados, essas variáveis foram mais bem controladas e com isso, os resultados apontaram uma série de vantagens cognitivas e sociais dentre indivíduos bilíngues.

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